A pior escola do Brasil?

Matéria publicada na Revista Trip dia 21 de setembro de 2011

Com 600 alunos indígenas, a Escola Estadual Pedro I ficou em último lugar no Enem

A Escola Estadual Pedro I fica no Alto Solimões, perto da fronteira com a Colômbia. Com 600 alunos indígenas, a escola ficou em último lugar no ENEM porque, entre os estudantes, português é a segunda língua – e às vezes até a terceira –, atrás do ticuna e o espanhol. Um exemplo claro de como é complicado ter um mesmo currículo e um mesmo sistema de avaliação para o Brasil inteiro.

Os jovens não falam português fluentemente e as crianças nem sequer entendem. A língua dos bate-papos animados é o ticuna. No entanto, são obrigados a aprender matemática, química, física, história, geografia etc. na língua pátria. Uma situação insólita, diga-se. Na língua que não dominam, o português, os jovens precisam ler e escrever – e prestar exames. E, na língua que dominam, o ticuna, também encontram limitações na leitura e na escrita, por tratar-se de uma língua de tradição oral. Assim caminha a juventude ticuna: soterrada numa salada de identidades. Perguntados sobre o que querem da vida, eles respondem que querem o mesmo que a maioria dos jovens: entrar na universidade.

Meus pais falam pouco português. Estudaram pouco. O Enem difícil para mim. Eu não sabia entender. Não compreendia questões. Eu acho que se a prova fosse em ticuna, a gente muito melhor. Meu sonho é fazer medicina – diz Moacir da Silva, 25 anos, olhos colados no chão, português vacilante.

Maior dificuldade matemática, química e história. Muito diferente da escola. A linguagem muito complicada também. Tinha que ter prova em ticuna. Facilitar muito porque a gente entende melhor, mesmo existindo pouco material escrito em ticuna. Não desisto. Eu quero fazer secretariado nível superior – comenta Rosilene Miguel Batalha, 23 anos, com um bebezinho de olhos brilhantes no colo. Ela também prestou o Enem em 2009.

Quero estudar longe, em Manaus. Quero fazer informática. Estou fazendo curso livre em Santo Antônio. Todo sábado pego a canoa e vou. Fiz o Enem. Não consegui. Não somos burros não. Só não falamos a língua direito porque português não é a nossa língua – emenda Valdemir Crispim, 19 anos, também inscrito no Enem de 2009.

Confira a matéria na íntegra aqui

 

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