Educação: gastos maiores com alunos não garantem melhores notas

Levantamento mostra que, das 10 cidades com maior despesas por alunos no Estado, apenas uma consegue estar entre os 10 melhores no índice do Ideb
Os municípios capixabas que têm o maior gasto por aluno não conseguem transformar esse dinheiro em bons resultados nas avaliações nacionais. Das 10 cidades que tiveram os alunos mais caros do Estado em 2013, apenas uma consegue estar entre os 10 maiores Índices de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) do Estado.
É o que mostra um levantamento inédito feito por A GAZETA usando dados do Ministério da Educação e da revista Finanças dos Municípios Capixabas 2014 que analisa a aplicação dos recursos dos municípios em 2013 – data do mais recente resultado do Ideb.
Confira a tabela no fim da matéria
O índice mede a qualidade do ensino em todo o país por meio do desempenho dos alunos em provas de Língua Portuguesa e Matemática e também por meio da taxa de aprovação.
A cidade que mais gastou por aluno em 2013 foi Presidente Kennedy, com R$ 15,4 mil por aluno, no entanto, obteve apenas o 32º Ideb do Estado nos anos iniciais. Nos anos finais, a cidade nem aparece já que não teve quantidade suficiente de alunos fazendo a prova. A realidade do município do Sul do Estado não é exceção.
Dos dez maiores investimentos por aluno apenas Santa Maria de Jetibá conseguiu ficar entre os 10 melhores Idebs do Estado. E na 10ª posição dos anos iniciais (confira dados no infográfico).
Tânia Villela, diretora da Aequus Consultoria, responsável pela revista, explica que a realidade de Presidente Kennedy e de Anchieta é de altas receitas o que aumenta a capacidade dos municípios de investirem em educação.
“Kennedy é a maior receita per capita do país desde 2010, por conta dos royalties. Isso permite que o município tenha folga nas receitas que pode usar para a educação. Anchieta tem royalties e também ICMS e ISS elevados”, explica.
Direcionamento
Para a coordenadora-geral do Todos Pela Educação, Alejandra Meraz Velasco, apenas o gasto não garante a qualidade. “Se houver um principal insumo na educação ele é a formação de professores. É preciso investir nisso, já que as faculdades formam pensadores da educação e não professores para a educação básica”, diz.
Para ela, algumas atividades como o petróleo trazem uma injeção de dinheiro na economia dos municípios, mas não mudam contextos sociais. “O peso do nível socioeconômico é em torno de 70%. Isso passa pela educação dos pais, acesso a cultura. A injeção de dinheiro não muda esse quadro imediatamente”, pondera.
Contexto social tem influência
Na análise do secretário de Estado da Educação, Haroldo Corrêa Rocha, o contexto social tem grande influência para algumas cidades, apesar do grande investimento, não conseguirem bons resultados no Ideb. “Há três grandes determinantes na evolução da aprendizagem: um é a escola, o outro é a família e o outro é o nível socioeconômico”, destaca.
Ele explica que Santa Maria de Jetibá possui alto nível socioeconômico e famílias bem estruturadas com origem na imigração. Já Presidente Kennedy tem uma economia baseada em mandioca, abacaxi, gado, maracujá e cana, que não traz nível socioeconômico elevado. “Os royalties do petróleo deixam o poder público mais rico, mas não mudam a condição das famílias”, avalia.
Ele destaca que o investimento deve ser feito de maneira equilibrada. “O investimento tem que chegar ao currículo e àquilo que melhor impacta na aprendizagem, como formação dos professores e mudança no currículo”. Ele cita as perdas de receitas e adianta que elas podem ter impacto na aprendizagem no futuro.
Presidente Kennedy dá bolsas em faculdade e “merenda dupla”
Na cidade que tem o maior gasto por aluno do Estado nem todo o dinheiro vai para a educação infantil e o ensino fundamental, principais obrigações dos municípios de acordo com a legislação. Presidente Kennedy, no extremo Sul do Estado, também patrocina 600 bolsas de estudos em faculdades para pessoas do município estudarem em Cachoeiro e em Campos, no Rio de Janeiro.

Enquanto isso, no ensino fundamental, o município ostenta apenas o 32º maior Ideb do Estado nas séries iniciais e nem aparece nos anos finais porque não teve alunos suficientes fazendo a Prova Brasil.
“Não nos preocupamos só com a educação básica. Hoje também investimos na educação superior porque é importante para o município. Ofertamos 600 bolsas e pagamos o transporte para alunos de vários cursos”, diz a secretária de Educação da cidade Sabrina Proêza.
Ela afirma que a qualidade do suporte à educação no ensino fundamental em Presidente Kennedy é elevada, o que justifica a alta despesa.
“Hoje o aluno não merenda só uma vez, mas também tem um desjejum pela manhã e um lanche no final das aulas para as crianças da tarde”, diz.
Sabrina também explica que o município investe pesado em transporte escolar, com monitores para os alunos. Sobre o Ideb, ela reconhece que a posição no Estado não é de destaque, mas vê evolução.
“Mesmo com essa posição, cumprimos a meta do MEC. Já melhoramos muito e vamos melhorar mais. Mas as intervenções em educação não têm resultado imediato. Vamos demorar a chegar entre os 10 melhores. Implantamos o Mais Educação e hoje nós já percebemos uma evolução no trabalho realizado em sala de aula”, disse.(Com colaboração de Beatriz Caliman)
Anchieta: capacitação de professor
Dona do segundo maior gasto por aluno e ao mesmo tempo da 41ª posição no Ideb dos anos iniciais e da 53ª nos anos finais, a secretaria de Educação de Anchieta informou que desde 2013 tem fortalecido os investimentos na educação para melhorar os índices e a qualidade do ensino. Segundo a prefeitura, os resultados de 2013 são herança da gestão passada, e a cidade trabalha para mudar este quadro.
A prefeitura diz ter investido R$ 300 mil em aquisição de livros para alunos, capacitação para professores e implantado projetos de Provinha Brasil e materiais da metodologia Aprova Brasil.
A prefeitura também disse que implantou o simulado próprio para mensurar o nível de aprendizado dos alunos. “A expectativa é que no próximo Ideb possamos colher os frutos que estamos plantando”, diz a nota.
Santa Maria: exceção graças ao uso do xadrez
Na cidade que foi a exceção – a única entre os 10 maiores investimentos que também figurou em um top 10 do Ideb –, um dos segredos para os bons resultados é um esporte. Isso mesmo, o xadrez é, segundo o secretário de Educação da cidade, um dos motivos para os avanços.
“Desde que implantamos o xadrez nas escolas como disciplina, o Ideb mostrou essa evolução. Talvez sejamos um dos que mais evoluíram no Estado. O nosso primeiro Ideb era de 3,2, uma nota baixa. Isso faz parte de entender onde tem que se investir e buscar alternativas”, diz o secretário Charles Moura Netto.
Além disso, as escolas da cidade têm gestão democrática com a intensa participação das comunidades e autonomia curricular para decidir sobre a aprendizagem.
“Também estamos entre os maiores planos de cargos e salários para os professores. O salário inicial para 40 horas é de R$ 2.530, bem acima do piso nacional de R$ 1.917. Muitos deles têm pós-graduação e já ganham mais do que isso”, destaca o secretário Moura Netto.
Ele destaca que o município possui uma estratégia de não concentrar as escolas. São 46 unidades de ensino espalhadas. Isso, segundo o secretário, ajuda na proximidade da comunidade com as unidades de ensin
Capital altera currículo para melhorar
Quarto maior gasto por aluno, mas com o 55º e o 29º Ideb nos anos iniciais e finais, respectivamente, Vitória está revisando o currículo para melhorar a aprendizagem dos estudantes. Também é realizada intervenção pedagógica de acordo com as dificuldades dos alunos.
“Nosso documento curricular não tinha muita objetividade no que diz respeito aos direitos de aprendizagem. Isso é um fator interno que impacta nos resultados. Mas vamos implantar um novo currículo”, diz Adriana Sperandio, secretária de Educação da Capital.
Ela destaca que, se analisado os índices, Vitória evoluiu de 2011 para 2013. Além disso, na Região Metropolitana, a Capital tem 3 das 5 melhores escolas no Ideb dos anos iniciais e 4 nas dos anos finais.
Adriana ressalta que por ser Capital a cidade tem alguns desafios maiores que as cidades do interior para garantir a aprendizagem. “As famílias na cidade grande têm um tempo de trabalho muito maior, nem sempre estão presentes na escola. Além de questões sociais como a violência que tornam o desafio de avançar mais complexo”, diz.
Segundo a secretária, 70,8% do custo-aluno de Vitória vem da remuneração de professores, 100% deles com especialização. Além disso, a cidade atende 86% da demanda por creche para crianças de 0 a 3 anos e 98% da de 4 e 5 anos. “Também temos a educação inclusiva em que somos a primeira capital da América Latina e a Educação de Jovens e Adultos (EJA) que impactam nesse valor”.

 

Matéria publicada em GAZETA ONLINE, no dia 28 de setembro de 2015

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