Enem revela realidades opostas em escolas com melhor e pior nota no MS

Separadas por cerca de 12 km, as escolas com melhor e pior média de Campo Grande no Enem 2014 estão ainda mais distantes em critérios socioeconômicos. As diferenças entre os locais variam da estrutura física a tempo de permanência e evasão escolar. O G1 esteve nos dois colégios e conversou com os responsáveis. Em comum, eles têm a mesma opinião sobre os problemas e soluções para a educação no país.
Localizada na periferia da capital sul-mato-grossense, na Vila Bordon, a Escola Estadual José Ferreira Barbosa, teve a pior média do Enem e ficou em 13.241º lugar no ranking nacional. A média de nota nas provas objetivas foi de 471,84. O diretor da escola, Mariomar Rezende Diniz Junior, disse ao G1 que o desempenho não surpreende e defende que não existe “escola pior ou melhor”.

“A gente nunca espera esse tipo de notícia, mas é algo previsível. Por quê? Primeiramente a escola tem uma evasão [de alunos] que já diminuiu, mas continua alto. Essa evasão acontece por vários motivos […] E outra, não existe escola pior ou melhor. Só de nós abrirmos as portas todos os dias e darmos aula com dedicação já é um avanço, a educação evolui aos poucos, não é do dia para a noite. Estamos plantando o futuro”, explicou.
A infraestrutura em torno da escola carece de asfalto, linhas de ônibus e iluminação pública. Estes fatores afastam alunos por conta da dificuldade de acesso e insegurança, segundo o diretor, Mariomar Rezende Diniz Junior, outro fator que contribui para a rotatividade e evasão.
Segundo o Instituto Nacional de Ensino e Pesquisa (Inep), o indicador de permanência na escola, índice que mostra se o estudante cursou total ou parcialmente o ensino médio no mesmo local, está entre 40% a 60%. Mariomar também aponta a questão socioeconômica como agravante, já que os alunos do ensino médio, geralmente com idade entre 14 e 17 anos, começam a trabalhar.

“A nossa região é de alta vulnerabilidade, periferia, os alunos vão envelhecendo e precisam ajudar a família com trabalho. Começam a entrar no mercado de trabalho, seja formal ou não, porque é uma realidade, muito cedo. A pessoa trabalha o dia todo e tem aula à noite, chega cansada. No começo ela vem, mas depois, infelizmente, acaba desistindo e abandonando a escola”, justificou.
A segunda situação apontada pelo diretor é a rotatividade de alunos. Muitos saem por conta do trabalho ou acabam indo para outra escola mais perto do serviço. As aulas do ensino médio no colégio são somente à noite. O nível socieconômico dos alunos do local é considerado médio, segundo o Inep.
“Moradores próximos do local falam para a gente que não estudam aqui porque é de difícil acesso. Quando chove, isso aqui fica intransitável, os alunos vão chegar como? Tivemos um aluno cadeirante do 3º ano do ensino médio, ele também vai entrar na estatística, e como que vai chegar aqui se chove? Esse tipo de situação independe de direção de escola, de dedicação do professor”, explicou.
O diretor lembra que a situaçao do colégio é típica de outros locais que têm ensino médio noturno e ressalta que em escolas com aulas regulares no período diurno a realidade é outra. Ele defende a reestruturação do ensino médio, caso contrário “resultados não aparecerão”.
No começo do ano, 536 alunos se matricularam na escola, que tem turmas de todas as séries até o ensino médio, segundo Mariomar. O número caiu e está em 488 em agosto. No ensino médio, atualmente são 118 alunos de quase 150 que se matricularam para o ano letivo.

A 12 km
O Colégio Bionatus II teve média de nota nas provas objetivas de 712,91, a maior de Campo Grande. O desempenho da escola particular foi o 11º melhor do país, segundo ranking divulgado pelo MEC, e o índice de permanência no ensino médio é menor que 20%, porque parte dos alunos cursa só o último ano no estabelecimento.

Localizada em região nobre, no Jardim dos Estados, o colégio foi criado em 2006, depois de atuar como cursinho preparatório para vestibulares de medicina por vários anos.

Agora, há turmas de ensino médio e aulas em período integral. Apesar de não constar a informação no ranking do Inep, o colégio é considerado de alto nível socieconômico, já que a mensalidade custa R$ 1,8 mil.
Professor de redação e ex-coordenador do colégio, Carlos Eduardo Pereira, diz que a nota no Enem é reflexo do trabalho. “A gente não vai atrás de estatísticas, mas elas aparecem para coroar os pequenos gestos, como organização e disciplina, que buscamos sempre”, ressaltou.
A coordenadora do colégio, Roseli Camargo Rodrigues, diz que o interesse dos alunos aliados à dedicação dos professores fazem a diferença no desempenho final. Segundo Roseli, os alunos já chegam na escola com noções de autodisciplina, geralmente porque querem faculdades mais difíceis. Situação oposta daquela que provoca rotatividade e evasão escolar na escola estadual José Ferreira Barbosa, onde segundo o diretor, a maioria dos alunos só quer concluir o ensino médio.
“Na prática é muito simples, não tem mistério. Quem decide vir pra cá é o aluno, nós juntamos forças. A gente vai ajudá-lo a realizar o sonho dele, que é às vezes o mesmo dos pais. Não vem nenhum aluno aqui querendo uma universidade simples ou um curso mais simples, eles querem sempre alcançar um objetivo muito grande e a gente, com toda a nossa equipe, auxilia esse aluno a atingir o objetivo dele”, ressaltou Roseli.
Outro fator favorável apontado por ela e pelo professor Cadu é a ‘burocracia saudável’.
“A escola tem uma burocracia saudável, que tem os componentes de sistema de provas, o modo como a gente organiza nossos simulados, existe toda uma equipe de pessoas em prol disso, os monitores que ficam atendendo os alunos fora de sala, a presença constante de coordenação da escola junto do professor, orientando as práticas na sala de aula, cobrando resultado e eficiência, desenvolvendo as políticas e a forma que a escola conduz, pensando a escola no futuro”, explicou o professor. Aulas e provas
No colégio Bionatus, os alunos estudam em salas amplas, com mesas individuais separadas por cabines de estudo. A ideia de individualidade foi da coordenadora do colégio, que pensou em barrar as possíveis distrações que poderiam atrapalhar os alunos durante os estudos.
As aulas são ministradas por professor em uma espécie de passarela em frente ao quadro negro. O giz e o microfone auricular são instrumento de trabalho dos professores. A cada 15 dias, os estudantes passam por simulado específico das matérias exigidas no Enem e nos principais vestibulares do país.

Na escola estadual, as salas de aula são menores, com cadeiras mais simples. Os professores também usam giz e quadro negro. As avaliações obrigatórias são bimestrais, mas, segundo o diretor, os professores fazem avaliações paralelas, totalizando em média duas provas por mês.
Investimento x tempo
Na rede pública de educação, o maior problema, segundo Mariomar, são investimentos mal planejados e falta de paciência para ter resultado.
“Gestão. Saber investir o dinheiro público. Isso é um fato preponderante. Se você tem dinheiro, mas não investe com qualidade e orientação adequada, você está jogando dinheiro fora. E devemos lembrar o seguinte: educação precisa de dinheiro e de tempo. Não é amanhã, não é daqui um ano que você vai ter resultado de um investimento público. Isso demora décadas. Demora, mas há, e tem de perseverar”, reforçou.
No colégio Bionatus, o tempo em sala de aula é melhor aproveitado graças a divisão dos alunos em turmas homogêneas, explicou o professor Cadu. Segundo a coordenação, a separação é feita para otimizar as aulas e tornar o planejamento mais específico para aquele grupo de alunos.
“A gente separa as turmas por níveis educacionais, que é o resultado e o desempenho que os alunos têm nas provas, mas isso não é para a escola. A ideia é orientar o professor, para que ele entenda que deve entrar em uma sala e dar um nível de aula e entrar na outra com uma produção de aula diferente com práticas pedagógicas diferentes porque a necessidade do aluno é outra”, explicou Cadu.

Perspectivas
Mariomar comenta que o desempenho considerado ruim no ranking do MEC não desanima os professores da escola. Ele diz que na educação “não existe mágica”, por isso, os professores trabalham nas primeiras séries já pensando no ensino médio. “Na educação a gente não pode esmorecer, não pode baixar a guarda”.
Roseli, que já trabalhou na rede pública de ensino, diz que conhece as dificuldades e aponta a dedicação e qualidade dos professores como chave para o sucesso.
“A gente tem que falar do material humano, porque eu sou contra o professor da rede pública ser considerado um coitadinho, sei que é mal remunerado, acompanho as lutas e dificuldades estruturais, isso existe e a gente não pode negar que atrapalha a educação no país. Mas, tem aquele professor que mesmo com essas condições precárias consegue ter um bom resultado […] Estrutura é muito importante, mas não deveria justificar o mal desempenho”, opinou.
Mariomar concorda com Roseli quanto às dificuldades, mas reforça que a situação já esteve pior. Ele diz que hoje os professores têm mais estrutura e tempo de planejar aulas, reconhece que a implantação do piso salarial melhorou a qualidade de trabalho e diz que ainda falta evoluir. Mesmo assim, ele ressalta que os colegas da rede pública fazem “um trabalho bom diante de todas as adversidades”.

Materia publicada no G1 no dia 12 de agosto de 2015

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