Escolas indígenas debatem racismo e qualidade na educação em Dourados (MS)

Nos últimos dias 18 e 19 de agosto, temas como exclusão, desigualdades, laicidade, participação e Planos de Educação foram discutidos no município

“E os soldados brancos nunca brincam; Vigiando esta terra de crianças pretas; E as crianças pretas se acostumam a jamais serem soldados; E só brincam de crianças pretas dominadas por soldados brancos; Pois querer ser soldado deve ser só para crianças brancas”.

O trecho de poema acima foi recitado por um estudante indígena Kaiowá de ensino médio durante atividades realizadas nos últimos dias 18 e 19 de agosto no município de Dourados (MS). No primeiro dia, ocorreu o colóquio “Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente: eliminação de preconceitos e discriminação” na Câmara dos Vereadores da cidade.

Segundo diagnóstico sobre a situação educacional das aldeias indígenas de Dourados feito pela prefeitura em 2011/2012, o município tem a segunda maior população indígena do Brasil, atrás apenas do estado do Amazonas. São mais de 12 mil indígenas das etnias Terena, Guarani Kaiowá e Guarani Nhandeva.

No marco das campanhas Por Uma Infância Sem Racismo, do UNICEF, e Fora Da Escola Não Pode, do UNICEF em parceria com a Campanha Nacional Pelo Direito à Educação, o Colóquio contou com a apresentação da coordenadora da área de educação da Ação Educativa, Denise Carreira, da oficial de educação do Unicef, Júlia Ribeiro, do representante da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi), do Ministério da Educação, Kleber Gesteira e Matos, e da advogada da OAB de Dourados, Luciana Ramires Fernandes.

Durante o debate temas como exclusão, desigualdades, laicidade, participação e Planos de Educação foram abordados e discutidos com profissionais de educação e representantes da Secretaria Municipal de Educação do município.

Em todo o Brasil, a população indígena está entre os grupos de risco de exclusão escolar. Em 2010, 17% das crianças e adolescentes indígenas de 6 a 14 anos estavam fora da escola. “Superar esse desafio não é apenas uma responsabilidade do município de Dourados, mas também do estado do Mato Grosso do Sul e do próprio MEC”, enfatizou o diretor da Secadi, que também ressaltou a importância da cultura indígena para o desenvolvimento e formação da sociedade brasileira.

Dourados Ago14 - Campanha Nacional

 Estudantes de Dourados (MS) – Foto: Campanha Nacional pelo Direito à Educação

Já no dia 19 de agosto, foi dada a continuidade do trabalho iniciado em abril deste ano envolvendo duas escolas indígenas e duas rurais do município com o objetivo de discutir o racismo e o combate à discriminação no ambiente escolar, por meio dos Indicadores da Qualidade na Educação – Relações Raciais na Escola. “O trabalho com o tema das relações raciais deve ser feito a partir de três eixos: intervenção imediata, quando houver uma situação de discriminação; a partir do currículo e da democratização da educação”, pontuou Denise Carreira.

Estudantes, professores e representantes das equipes técnicas das escolas apresentaram suas reflexões sobre as relações raciais, por meio de cartazes, poemas, vídeos e projetos de teatro e de rádio comunitária desenvolvidos nas unidades educacionais. (Leia trecho de poema recitado por um estudante indígena Kaiowá no início deste texto)

 

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 Atividade com escolas indígenas e rurais de Dourados (MS) – Foto: Claudia Bandeira

As manifestações juvenis como o Hip Hop também foram abordadas como fundamentais para o questionamento do modelo que está posto de racismo e de discriminação das populações indígenas no município de Dourados/MS. “O racismo não é um problema do negro ou do indígena; é um problema das relações raciais”, enfatizou Denise Carreira.

Ao final do segundo dia das atividades, cada grupo escola apresentou seu “Mapa da Mina”: um levantamento do que há de recursos, movimentos, projetos e políticas públicas nas comunidades para trabalhar com a valorização da diversidade e combate ao racismo na região e na escola.

 

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