Influências e consequências das avaliações externas

No dia 13, a mesa “Influências e consequências das avaliações externas” teve como palestrantes Nelson Gimenes (FCC), João Luiz Horta Neto (Inep) e Sandra Zákia Sousa (FEUSP).

Gimenes iniciou sua fala questionando o papel das avaliações externas: “O que se faz com as avaliações externas, sobretudo as escolas? Que efeito isso tem na escola?”. Para respondê-las, apresentou resultados de uma pesquisa feita pela Fundação Carlos Chagas em quatro Secretarias de Educação:

Uso relacionado mais ao desenho da avaliação: realização de simulados para treinar os estudantes no preenchimento do gabarito; alteração nas formas de avaliar os estudantes pelos professores – questões fechadas de múltipla escolha; planejamento de atividade de acordo com os descritores de referência das avaliações externas; avaliação externa como fonte de inspiração para professores avaliarem estudantes em sala de aula: formato da prova, tipo de questão, tamanho da prova e conteúdos avaliados.

Usos de resultados: análise dos dados das avaliações – identificação de alunos com baixo desempenho, identificação de conteúdos e temas a serem trabalhados, identificação dos erros mais frequentes nas provas e autoreflexão dos agentes escolares a partir dos resultados; diversificação e/ou intensificação de atividades pedagógicas – lição de casa, adoção de atividades pedagógicas alternativas em função dos resultados (material dourado, produção e interpretação de texto, fichas de atividades), organização de atividades interdisciplinares.

De acordo com ele, é preciso refletir, a partir dos resultados, aspectos como a presença e progressiva aceitação da avaliação externa como recurso pedagógico; desenhos de avaliação que buscam cada vez mais a apropriação e uso por agentes escolares; preocupação com o caráter didático dos materiais de divulgação; pouca utilização das avaliações externas para pensar a formação dos professores.

Já João Luiz Horta Neto, do Inep, ressaltou que avaliar é diferente de medir: “Avaliar seria para atuar sob um aspecto da realidade”. De acordo com ele, as informações sobre os resultados muitas vezes são genéricas e não servem de subsídio para a prática dos profissionais das escolas. Com o Ideb perde-se a preocupação social e pedagógica da avaliação e os testes têm gerado números e sua importância tem sido superestimada.

Para Horta, atualmente são dois os modelos em disputa. O primeiro deles é o hegemônico, que aposta na competição e no individualismo, e estabelece o ensino e a aprendizagem estandardizados (contrário à inovação e criatividade). O segundo é a aposta na colaboração e na solidariedade, professores não são técnicos do ensino, mas profissionais da educação.

A outra palestrante, Sandra Zákia, ressaltou que o poder da avaliação não é novo. “Como esse poder da avaliação vem sendo utilizado e como tem trazido consequências em relação à educação no Brasil? Afinal, que noção de qualidade vem sendo induzida na avaliação? O que pode ser um caminho promissor para recolocar estas iniciativas?”, questionou.

De acordo com ela, é um equívoco reduzir a avaliação externa em larga escala no Brasil. “A avaliação externa como rotineiramente vem sendo utilizada entre nós?”. Além disso, chamou atenção à distorção sobre o entendimento de avaliação externa somente como aplicação de testes aos alunos. “A avaliação precisaria trazer consequências, que influenciassem ações e iniciativas posteriores às avaliações. O teste não é uma avaliação, é uma medida, ele só se tornaria avaliação se gerasse consequências”, destaca.

Ainda de acordo com ela não existe neutralidade quando se fala de avaliação. “Que valores estão sendo afirmados e reinterados por meio das avaliações de larga escala: o que é qualidade, o que se espera, o que se valoriza?”, indagou Sandra.

Segundo a professora, há o movimento de acolhimento nas escolas das avaliações, inclusive com reformulação de currículos a partir das provas. Nesse sentido, aponta para um fortalecimento de práticas tradicionais de avaliação. A avaliação em larga escala tende a ser bem recebida pela escola, pois ela se identifica com essa forma de se avaliar.

Para Sandra, a escola acolhe isso com muita tranquilidade e as práticas tradicionais de avaliação reacendem: mais provas, simulados, presentes, medalhas para quem tem bom desempenho nos testes. Trata-se de um movimento de recolocar a centralidade numa medida de desempenho classificatória.

Seria interessante, afirma, a realização de formação de professores com base na prova, embora acarretem dois problemas. Entre eles, a relação de resultado de prova e despreparo do professor e a limitação quanto a formação do professor a uma perspectiva conteudista, uma concepção restrita de formação que vem sendo induzida pelos testes.

Sandra também aponta para uma tendência de situar na escola e no professor o fracasso escolar. Segundo ela, pouco se fala das políticas, raramente há olhar para as políticas e movimento de responsabilização relacionado à bonificação.

“Gero competição e as escolas irão melhorar: lógica de mercado que tem perdedores e ganhadores. As políticas ao contemplarem a comparação, classificação e competição geram exclusão e naturalizam desigualdades sociais. Não há visão do direito para todos”, ressalta.

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