Será possível uma educação para além da contábil?

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Para o professor da Universidade do Minho (Portugal), Licínio Lima, a política de avaliação externa em larga escala confere poder àqueles que controlam a avaliação e o retiram dos/as professores/as

“Será possível uma educação para além da contábil?”, problematizou o professor doutor em educação da Universidade do Minho (Portugal), Licínio Lima, durante o Seminário Políticas Educacionais e Qualidade na Educação: os processos avaliativos em debate, no último dia 19 de setembro.

No evento realizado pela Fundação Carlos Chagas, o professor analisou que a avaliação educacional hoje está muito subordinada a linhas positivistas, baseada em cálculos, que caracterizaria a educação, segundo Licínio, como “contábil, educação que deixa contar, comparar e hierarquizar”. Para o professor, a dinâmica da educação está submetida a uma quantificação sem mediações teóricas e políticas.

De acordo com Licínio, a avaliação precisa ser vista de outro lugar, um lugar de controle da política pública, que influencie processos e organizações, e sobre a qual temos que refletir e estudar. “As avaliações externas em larga escala, por exemplo, estão desvinculadas da prática pedagógica e tratam professores e alunos como objetos e não como sujeitos da avaliação. Limitam-se a enviar informações, por meio de técnicas. Um modelo de avaliação instrumental e utilitarista, em que as práticas pedagógicas se adequam a avaliação e não o contrário”, ressaltou o professor.

Durante sua exposição, o professor falou também sobre a desvalorização de processos e sobre a ausência de intervenções pedagógicas decorrentes do modelo de avaliação educacional que está posto.  De acordo com ele, “há uma distância entre avaliados e agentes avaliadores que são somente especialistas em avaliação, que nada entendem de pedagogia e práticas pedagógicas”.

Na procura de escolas eficazes, criam-se rankings. “O Estado provê cada vez menos e avalia cada vez mais”, enfatiza o professor, explicando que quanto mais os governos recuam, mais promovem políticas de avaliação para legitimar suas ações.

Falou também sobre uma “retórica da autonomia”, em que por trás do discurso da autonomia, há cada vez mais avaliação e mais controle dos professores e modelagem de estudantes: “ou seja, muita avaliação para pouca ou nenhuma autonomia”. Trata-se, portanto, de um modelo de política pública que confere poder àqueles que controlam a avaliação e o retiram dos professores e professoras.

Os objetivos das avaliações externas em larga escala, segundo Licínio, são dados como certos e consensuais, compreendendo que aquilo que se mede é verdadeiro e resulta em “boa qualidade”. “Não há participação, conflito, gentes diversas e criação de consensos. Nesse sentido, a escola é tratada como técnica e não como organização cultural”, constatou.

Outras consequências da avaliação externa em larga escala, de acordo com o professor, é a introdução de métodos de gestão privada e o fortalecimento da meritocracia, extremamente discriminatória e produtora de desigualdades. Nessa perspectiva, Licínio identificou a ação de economistas e grandes empresários que atuam na área da educação e se legitimam a partir da lógica da privatização da gestão educacional.

Já em Portugal e na Europa, segundo Licínio, as Universidades são avaliadas por agências externas e estrangeiras que seriam os “novos departamentos de controle de qualidade e de burocratização do processo educativo, de natureza global e inter-global e que visam ‘reformar os professores’”. E complementou: “talvez seja possível uma educação para além da perspectiva contábil, mas não será uma tarefa fácil”.

Autoavaliação institucional

Sobre a autoavaliação institucional, Licínio problematizou que, muitas vezes, essa é uma prática pautada, por meio de indicadores elaborados por autores externos à escola. Para ele, a autoavaliação institucional se relaciona com a autonomia para avaliar, trata-se da escola ter seus referenciais ou pelo menos negociar parte dos referenciais que serão utilizados na avaliação.

Segundo o professor, numa lógica de Mercado do Banco Mundial e de outros organismos internacionais, a autoavaliação institucional não tem valor, já que não é comparável, nem “rankiável” e, portanto, não é entendida como avaliação.

Foto: http://portal.ead.ifrn.edu.br/

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